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Textos, livros e reportagens

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Saved by Roberta Oliveira
on April 3, 2009 at 10:16:19 am
 

      As redes de trabalho afetivo e a contribuição da saúde para a emergência

      de uma outra concepção de público

      Ricardo Rodrigues Teixeira

      Epidemia de desigualdade: proliferação de todas as formas de

      desqualificação, desvinculação, eliminação, de produção de indivíduos

      “desnecessários”. Epidemia de violência: “pandemia de medo” (Breilh,

      2004). Vivemos em coletivos amedrontados, nos quais os laços sociais se

      desfazem: paradoxais coletivos sem laços sociais, nos quais o coletivo

      propriamente dito foi “seqüestrado” (Nunes, 2004). Epidemia de estados

      depressivos (Lakoff, 2004): experimentamos, enfim, todas as formas de

      diminuição da potência dos indivíduos e dos coletivos, que não são meros

      efeitos colaterais das políticas neoliberais, mas uma de suas obras

      principais, pois é preciso enfraquecer os indivíduos e os coletivos para

      melhor dominá-los, para mais facilmente submetê-los à força do imperium.

      É contra este cenário que nossas principais questões se colocam: como se

      poderia alcançar algum sentido de público, onde o coletivo foi

      “seqüestrado”? O que poderia significar nesse contexto de “impotência”

      política, o desafio de construção de uma democracia participativa e

      protagônica? O resgate da capacidade de iniciativa política dos grupos

      sociais não teria se tornado a tarefa política prioritária nas sociedades

      assoladas pelo cataclismo neoliberal? E esse resgate não passaria pela

      restauração de “laços sociais” enfraquecidos?

      Se estas são as questões mais gerais, elas ainda se especificam num plano

      que pode ser dito micropolítico. Entendemos que os projetos políticos só

      ganham plenamente sentido quando se atualizam neste plano, que é o plano

      em que se realizam as formas de vida concreta das pessoas, aquele em que

      se forjam suas expectativas e seus valores, os quais, em última instância,

      conformam suas escolhas e adesões voluntárias a projetos políticos.

      É este o campo problemático das argumentações que se seguem. Elas examinam

      as conseqüências micropolíticas de determinadas práticas de saúde,

      considerando a possibilidade de operarem como autênticas “técnicas de

      reconstituição do laço social”.

      *

              É comum se partir das limitações dos equipamentos de saúde em

      fazer frente à amplitude dos determinantes da saúde, para justificar a

      necessidade de uma ação intersetorial. Aqui, o caráter intersetorial do

      trabalho em saúde é dado primeiro e o que interessa é discutir qual a

      contribuição efetiva dos equipamentos de saúde para essa tarefa amplamente

      coletiva que é produzir saúde.

      Assim, quando falo em trabalho em saúde, não estou me referindo apenas ao

      trabalho dos profissionais de saúde, mas a todo um esforço coletivo,

      envolvendo a participação de múltiplos agentes sociais que, direta ou

      indiretamente, contribuem para a melhoria das condições de vida e saúde de

      indivíduos e populações. E é nesse sentido ampliado que estou pensando,

      quando falo em redes de trabalho em saúde.

      Mesmo que meus estudos estejam focados no trabalho dos profissionais de

      saúde e, mais especificamente, naquele que se dá na rede de serviços de

      saúde, ele não deverá ser pensado apenas como tendo lugar numa matriz de

      interações profissionais, mas enquanto um elemento integrado a estas redes

      mais amplas de trabalho social. Nesses estudos, venho buscando uma

      releitura teórica da rede de serviços de saúde – fundamentalmente, uma

      releitura segundo categorias comunicacionais – que tem a vantagem de se

      mostrar igualmente útil para a consideração das redes de trabalho em saúde

      em sua acepção ampliada.

      Nessas formulações teóricas, venho procurando uma aproximação mais fina e

      menos abstrata da “materialidade” constitutiva da rede de serviços saúde

      (Teixeira, 2001), o que me conduziu, num primeiro momento, ao

      reconhecimento da natureza eminentemente conversacional do trabalho em

      saúde e a uma primeira tentativa de sistematização das técnicas de

      conversa que efetiva ou potencialmente dão forma a este trabalho

      (Teixeira, 2003). Dessa perspectiva, as redes de trabalho em saúde passam

      a ser concebidas como grandes redes de conversações.

      *

      Proponho uma dada técnica de conversa, convencido de que se trata de uma

      resposta adequada aos problemas, hoje intensamente discutidos no Brasil,

      do acolhimento e do vínculo nos serviços de saúde. Afastando-se das

      soluções mais freqüentes que tendem a tratar o acolhimento como uma

      atividade (de recepção nos serviços) desempenhada por um profissional

      particular num espaço específico, o acolhimento é aqui proposto como um

      acolhimento dialogado, isto é, como uma técnica de conversa passível de

      ser operada por qualquer profissional, em qualquer momento de atendimento,

      isto é, em qualquer dos encontros, que são, enfim, os “nós” da imensa rede

      tecnoassistencial da saúde. E o que caracterizaria essa técnica de

      conversa? O acolhimento-diálogo, no sentido mais amplo possível,

      corresponde àquele componente das conversas que se dão nos serviços em que

      identificamos, elaboramos e negociamos as necessidades que podem vir a ser

      satisfeitas.

      Em outro texto (Teixeira, 2003), discuti o papel crucial que este

      componente da conversa desempenha na dinâmica global da rede, o modo como

      “conecta” seus diversos pontos. Privilegiarei aqui, não o que o

      acolhimento faz para o funcionamento da rede, mas como faz: o modo como

      esta técnica de conversa define a dimensão pragmática do encontro, os

      domínios de ação (emoções, afetos) e de significação (linguagem,

      conhecimento) e as utilizações possíveis do próprio encontro.

      Como já foi dito, trata-se de um acolhimento dialogado e esse diálogo se

      orienta, fundamentalmente, pela busca de um maior conhecimento das

      necessidades de que o usuário se faz portador e dos modos de

      satisfazê-las. Portanto, será preciso primeiramente explicitar qual o tipo

      de relação se deve aqui estabelecer com a questão das necessidades. E esta

      corresponde, de fato, a uma das mais finas “operações de passagem”

      propostas por este dispositivo de conversa, consistindo na pressuposição

      geral, que deveria pautar todas as conversas e práticas de conhecimento

      que se dão no serviço, de que nossas necessidades não nos são sempre

      imediatamente transparentes e nem jamais estão definitivamente definidas,

      mas são e desde sempre têm sido objeto de um debate interminável, de uma

      experimentação continuada, em que o que se discute e refaz sem cessar é a

      nossa própria humanidade.

      Pode-se dizer, de forma bem sucinta, que o acolhimento dialogado seria uma

      técnica de conversa de apoio ao processo de conhecimento das necessidades,

      fundada em certas disposições ético-cognitivas:

      · o reconhecimento do outro como um legítimo outro;

      · o reconhecimento de cada um como insuficiente;

      · o reconhecimento de que o sentido de uma situação é fabricado pelo

      conjunto dos saberes presentes.

      Ou ainda: todo mundo sabe alguma coisa, ninguém sabe tudo e a arte da

      conversa não é homogeneizar os sentidos fazendo desaparecer as

      divergências, mas fazer emergir o sentido no ponto de convergência das

      diversidades.

      Penso que de um ponto de vista micropolítico, tal arte ou técnica de

      conversa é uma contribuição genuína para o problema contemporâneo da

      democracia, concebendo-a nas relações cotidianas, como a possibilidade do

      exercício de uma democracia viva em ato. Idéia de democracia que foi

      concebida e tão bem expressa por Humberto Maturana, para quem: “a

      democracia é uma obra de arte, um sistema de convivência artificial gerado

      conscientemente, que só pode existir através das ações propositivas que

      lhe dão origem como uma co-inspiração em uma comunidade humana. (...). A

      democracia não é um produto da razão humana, a democracia é uma obra de

      arte, é um produto de nosso emocionar, uma maneira de viver de acordo com

      o desejo de uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo.”

      (Maturana y Verden-Zöller, 1997).

      O que pretendo destacar de todas essas observações é como o acolhimento

      dialogado, enquanto uma técnica de conversa, parece se caracterizar

      primordialmente por um conjunto de disposições ético-cognitivas, pela

      aceitação de um conjunto de pressupostos e predisposições no diálogo com o

      outro, o que define, a rigor, seus domínios de ação e de significação.

      Correspondem, efetivamente, a determinados “estados do corpo”, àquilo que

      Maturana chamaria de seus “emocionares”, ou seja, a determinadas emoções e

      afetos. Trata-se, enfim, de um dos modos pelos quais se pode evidenciar a

      incidência eminentemente afetiva do trabalho em saúde e o quanto essa sua

      produção “intangível” está fortemente condicionada por suas técnicas de

      conversa. As redes de trabalho em saúde – essas extensíssimas redes de

      conversações – passam, assim, a ser pensadas como redes de trabalho

      afetivo, no sentido de que o essencial nelas é, de fato, a criação e a

      manipulação dos afetos.

      E o que são redes de trabalho afetivo? São redes de produção de afetos, o

      que, como procurarei demonstrar, é a própria produção de redes sociais, de

      comunidades, de formas de vida (biopoder), de produção de subjetividades

      (individuais e coletivas) e de sociabilidade (Hardt, 1998). Redes de

      produção de redes.

      *

      Microfísica do vínculo: uma leitura espinosana

      Na contramão dos analistas estruturais de redes, recorrerei ao exame de

      uma relação diádica, isolada do conjunto da rede de relações. Estes

      estudiosos de redes ponderam que não poderemos compreender a formação de

      coalizões sociais a partir dos estudos de díadas, mas, antes, são as

      formas de reciprocidade diádica que precisam ser compreendidas no contexto

      das estruturas formadas por suas conexões (Wellman & Berkowitz, 1988).

      Contudo, não estou privilegiando, neste momento, a dinâmica global das

      redes, mas alguns eventos mais localizados que permitam uma melhor

      compreensão da natureza íntima do vínculo, elemento sem o qual as próprias

      redes não existiriam. Trata-se de um primeiro ensaio de microfísica do

      vínculo, examinando sua substância eminentemente afetiva, o que implica

      que consideremos o que se passa com os corpos e, mais exatamente, o que se

      passa no encontro entre, no mínimo, dois corpos.

      Também utilizarei um outro recurso expressivo para a brevidade da

      exposição: uma metáfora. A situação de encontro entre dois corpos que irei

      analisar deve ser a mais prosaica, universalmente experimentada e

      reconhecida por todos nós: a “paquera” (o flerte - flirt). Para não perder

      a pompa acadêmica, eu denominarei minhas análises de “teorema da paquera”.

      Num primeiro instante, fulminante, temos o chamado “amor à primeira

      vista”. Os corpos experimentam, neste caso, um estado de paixão “passiva”

      (logo ficará mais claro o que isso quer dizer) e estamos sob o domínio da

      imagem do outro, da impressão que ele nos causa, das afecções que ele

      imprime em nosso corpo. No caso, uma boa, uma ótima impressão.

      Experimentamos, em termos espinosanos, um afeto aumentativo, um sentimento

      de aumento de nossas potências ou, dito de outra forma, um aumento de

      nosso desejo, de nosso apetite, que se nutre da convicção de que aquele

      outro corpo nos convém. Mas até aí, também em termos espinosanos, estamos

      no reino do “conhecimento vago”. É claro que os espíritos mais

      “apaixonados” sempre dirão estarem seguros de terem encontrado seu par

      perfeito, seu amor eterno, mas sabemos que tais verdades só se confirmarão

      a posteriori...

      Do mesmo modo que Espinosa chama esse “conhecimento vago” (ou imaginativo)

      de conhecimento de primeiro gênero, podemos chamar as relações sustentadas

      por tais vínculos de uma relação de primeiro gênero.

      (Se quisermos estabelecer um paralelo rápido com o que se passa num

      encontro usuário-profissional de saúde, por exemplo, talvez essa primeira

      impressão – quando positiva – corresponda à chamada relação de “empatia”,

      que tantos autores consideram essencial para a adequada realização do

      trabalho em saúde. Esse primeiro impacto afetivo, a meu ver, é muito mais

      complexo, ou seja: a gama de afetos mobilizados num primeiro encontro e

      que podem levar à formação de vínculo me parece muito mais ampla e

      diversificada, tanto quanto são amplos e diversificados os fatores que

      podem condicionar esse encontro. No entanto, para não perdermos o fio da

      metáfora, podemos considerar este rápido paralelo como provisoriamente

      válido).

      Continuando nossa novela amorosa, é possível que, com alguma sorte, aquele

      encontro que despertou paixões intensamente positivas (ainda que

      “passivas”) se prolongue. Podemos, por exemplo, marcar um novo encontro,

      combinar uma saída, quem sabe um jantar a dois, de preferência uma

      oportunidade qualquer para conversar. Sem querer homogeneizar toda uma

      diversidade de estilos possíveis de paquera, creio não incorrer em graves

      reducionismos ao fazer algumas generalizações sobre o conteúdo mais

      habitual destas primeiras conversas. Os enamorados tendem, em seus

      primeiros encontros, a explorar o que têm em comum ou o que irei chamar de

      “zona de comunidade”:

      - Você gosta de comida japonesa? Puxa, eu também adoro!

      - Não me diga que você gosta dos filmes do Hal Hartley? Incrível! Eu nunca

      conheci alguém que também gostasse... Só falta você dizer que também gosta

      de Tarkovski... Não acredito!

      - Você também não suporta televisão? Nossa, a gente tem tudo a ver...

      Se alguém duvida desta fórmula da paquera, basta imaginar os efeitos de

      uma situação exatamente inversa, em que não descobríssemos qualquer “zona

      de comunidade” com aquele que, à primeira vista, despertou nosso

      interesse. Sairíamos do encontro provavelmente bastante frustrados ou, no

      mínimo, com uma enorme incerteza a respeito do futuro daquela relação.

      Paixões violentas não se extinguem diante desta decepção, mas já começam a

      prometer turbulências.

      Na nossa novela, entretanto, a paixão que se acendeu ao primeiro olhar só

      continuou a crescer mais e mais, na medida em que descobrimos a amplidão

      de nossa “zona de comunidade”, na medida em que descobrimos que aquele

      corpo realmente nos convém. Experimentamos esta nova paixão como um

      aumento ainda maior de nossa alegria, um aumento de nossa potência, de

      nosso desejo e apetite de vida. Mas, sobretudo, ela vai deixando de ser

      uma paixão “passiva” e progressivamente vai se tornando uma paixão

      “ativa”, isto é, descobrimos, pelo conhecimento recíproco, que estamos

      realmente diante da possibilidade de entrarmos, conjuntamente, na posse

      dessa potência de vida e experimentarmos afetos de alegria consistente.

      Saímos deste encontro rindo à toa. Com esse riso gratuito, essa espécie de

      excesso ontológico que é o riso dos enamorados...

      Segundo Espinosa, já adentramos o reino do “conhecimento adequado” ou do

      conhecimento de segundo gênero, que é o conhecimento das “noções comuns”,

      o conhecimento daquilo que nos outros corpos nos convém. Esse

      conhecimento, quando é buscado conjunta e reciprocamente numa relação,

      abre a possibilidade de uma relação de segundo gênero.

      (Também poderíamos ensaiar mais alguns paralelos parciais com o que se

      passa no encontro usuário-profissional de saúde, quando ele atinge este

      segundo patamar, quando ele vai além de uma mera relação de empatia. Aqui

      também será preciso considerar algumas características da conversa.

      Levando-se em conta a assimetria constitutiva deste encontro, em que uma

      das partes está em busca de uma satisfação de necessidades, enquanto a

      outra é presumida deter os meios de satisfazê-la, podemos supor que o

      estabelecimento de uma “zona de comunidade” se dará em torno deste

      reconhecimento recíproco: o que um precisa e o que o outro tem a oferecer.

      De novo, trata-se de uma primeira aproximação bastante simplista do que

      pode se passar nesta conversa. Há, de fato, muitas outras possibilidades

      de se alcançar “noções comuns” nesta relação. Basta considerar, por

      exemplo, que a conversa, neste encontro, não é apenas veículo para se

      chegar a um conjunto de acordos ou consensos, mas tem um fim em si mesma,

      na medida em que se trata de uma “obra conjunta” que vai construindo o

      sentido daquele encontro, na medida em que se trata do primeiro produto

      material partilhado daquela relação. Em qualquer caso, entretanto,

      reconhece-se o sucesso do encontro em seus resultados afetivos, sempre que

      os corpos em presença experimentarem afetos aumentativos de alegria e

      potência).

      Neste ponto, creio que poderíamos qualificar melhor a natureza destes

      afetos aumentativos de potência experimentados por pelo menos dois corpos

      quando descobrem que mutuamente se convêm. A meu ver, são estes,

      justamente, os afetos que dão consistência ao vínculo. São eles que

      constituem esta espécie de “energia antropológica” dos laços sociais.

      Entendo que estes são os chamados afetos de confiança: são eles que dão

      substrato ao que chamamos de uma relação de confiança.

      Ora, sabemos que no trabalho em saúde, não se pode sequer falar numa

      relação verdadeiramente terapêutica sem que haja uma relação de confiança.

      Mas tampouco as relações amorosas ou sociais que possam ser ditas

      “saudáveis” prescindem de relações de confiança. E dizer isso não é pouco

      numa época em que quase tudo se volta para maximizar as relações de

      desconfiança. Não seria difícil descrever os elementos de uma autêntica

      cultura da desconfiança:

      - a biomedicina, montada no saber epidemiológico sobre o risco, não cessa

      de nos indicar onde moram os perigos, de nos fazer desconfiar de quase

      tudo que nos cerca, de quase tudo que fazemos, comemos ou bebemos. O

      discurso sobre o risco é, antes de tudo, um discurso geral sobre os corpos

      que não nos convêm (e apenas indiretamente, por contragolpe, um discurso

      sobre os corpos que podem eventualmente nos convir) e, portanto, um

      discurso que comunica tristeza, promovendo afetos de diminuição da

      potência, tanto mais totalitário quanto nos damos conta de que várias

      destas condições de risco dizem respeito a aspectos de nossa vida

“normal”.

      - os tiranos de todo tipo, onipresentes no passado tanto quanto em nossa

      história presente, também têm seu próprio discurso, sempre atualizado, do

      terror e do medo, inoculando em nossas almas e fazendo circular por toda

      parte a desconfiança em relação ao outro, especialmente, em relação ao

      estranho, seja o não homogeneizado pelos mecanismos de captura e produção

      de subjetividade serializada, seja simplesmente o estrangeiro. Ora,

      Espinosa já pintara um retrato deste tirano, mostrando que se trata de

      alguém que tem, acima de tudo, necessidade de nossa tristeza, “porque não

      há terror que não tenha uma espécie de tristeza coletiva como base”

      (Deleuze, 1978/1981).

      - os economistas disputam com os médicos (e ambos com os antigos

      sacerdotes) o lugar de dominância no discurso sobre o risco. Só que, nesse

      caso, não emitem juízo sobre os riscos para a saúde dos indivíduos em

      geral, mas para a saúde financeira dos especuladores e vendedores de

      crédito do planeta. Falam em “risco-país” e alguns “especialistas”

      (credenciados pelas próprias instituições financeiras) publicam

      periodicamente índices que podem ser bem definidos como “índices de

      desconfiança”: medem o grau de desconfiança que se deve ter em relação a

      certos mercados-países.

      - por fim, não podemos esquecer da mídia, irradiando todos estes discursos

      sobre a desconfiança no mais alto volume, deixando-nos surdos e incapazes

      de perceber os canais de circulação de solidariedade, de confiança (no

      outro e na vida) e de alegria consistente.

      Nesse sentido, conquistar a confiança, por si só, já é um logro. É não

      apenas a experiência de uma grande alegria, mas uma potência capaz de

      sustentar as dificuldades maiores de uma relação.  Sim, porque há outras

      conquistas, maiores, a se realizar numa relação...

      A “zona de comunidade”, isto é, a descoberta daquilo que nos outros corpos

      convém ao nosso, é apenas o primeiro patamar de uma relação consistente.

      Naturalmente, por mais raro que tenha se tornado, este ainda é o patamar

      mais fácil de alcançarmos e aquele que, talvez, nos dará a força

      necessária para conhecer o que é mais difícil: aquilo que nos outros é

      diferente e corresponde a sua “zona de singularidade”. Porque é preciso

      uma potência ainda maior para se conhecer, nos outros corpos, aquilo que

      não nos convém.

      Esse é, para Espinosa, o conhecimento de terceiro gênero ou conhecimento

      das “essências singulares”. Relação de terceiro gênero.

      Voltando a nossa metáfora amorosa – já abandonando a fase da paquera e

      partindo para a possibilidade de uma relação duradoura -, sabemos o quanto

      essas paixões iniciais, mesmo que medianamente “ativas”, isto é, mesmo que

      já fundadas no (re)conhecimento de uma “zona de comunidade”, por mais

      ampla que seja, por mais fortes que sejam os afetos de confiança que daí

      decorrem, não são sempre suficientes para garantir que nós saberemos lidar

      com as diferenças, com o que no outro eventualmente não nos convém. Por

      isso, não raramente, quando decidimos encarar a possibilidade de fazer

      esta relação perdurar, fazemos um “contrato”. E sabemos que os contratos

      começam onde a confiança termina... Os contratos podem ser vistos como

      próteses sociais de uma confiança perdida ou que jamais existiu. Ora, isso

      não quer dizer que quando vamos a um cartório para firmar um casamento não

      haja mais confiança recíproca. Pelo contrário, isso geralmente acontece

      quando a confiança está no auge! Mas não creio que seja exagerado dizer

      que, na prática, só é preciso firmar este contrato porque queremos

      garantir que certos compromissos serão mantidos e não temos certeza que

      seremos capazes, até o fim, de aceitar um ao outro, em todas as suas

      diferenças (que certamente acabarão por se revelar, mais cedo ou mais

      tarde).

      A partir deste ponto, em que eventualmente recorremos a um “contrato”,

      percebemos, de qualquer modo, que a confiança não é mais suficiente para

      sustentar as novas aventuras da relação. Sem ela, não teríamos chegado até

      aqui e ela é a própria potência, a própria força ou o trampolim que nos

      impulsionará mais adiante. E o que temos adiante? Não mais o que no outro

      se assemelha a nós. Não mais o que é facilmente reconhecível. Não mais o

      que no outro é, de certa forma, nossa própria imagem espelhada. Mas o que

      no outro é irredutível. Sua diferença absoluta. Sua singularidade radical.

 E é aí que começa o verdadeiro desafio da alteridade. Só aí somos

      verdadeiramente desafiados a aceitar o outro como um legítimo outro.

      Nessas novas zonas, passamos a experimentar novas intensidades, às quais

      fomos conduzidos pelos afetos de confiança, mas que já correspondem a

      novos afetos aumentativos que anunciam, por sua vez, outros modos de

      existência, em que nos tornamos a causa última de nossas paixões, em que

      entramos plenamente na posse de nossa potência. Para Espinosa, a

liberdade.

      E o que é esse afeto, essa paixão que nos predispõe a aceitar o outro como

      um legítimo outro, senão o já mencionado acolhimento?

      De novo, pensemos na relação usuário-profissional e em sua assimetria

      constitutiva, já que uma parte busca ajuda e a outra parte oferece

      apoio... Ora, “o apoio na queda não se faz por um ‘ter pena de’, mas por

      um ‘sofrer com’...” E eis outro modo de se fazer “zona de comunidade”:

      com-paixão. “Um ‘sofrer com’ feito ao mesmo tempo de indiferença e de

      cumplicidade: indiferença em relação a tudo o que cheira a vontade de

      homogeneização (por exemplo, viver a queda como vítima), mas cumplicidade

      também com todo e qualquer movimento de entrega e de diferenciação”

      (Rolnik, 1995).

      Quando um campo de confiança se constituiu entre os sujeitos, já podemos

      nos mostrar para o outro com todos os traços de singularização que marcam

      nosso corpo e nossa alma, sem medo de sermos rotulados como loucos, fracos

      ou perdedores. Nota-se que há um deslizamento sutil do afeto de confiança

      para o afeto de acolhimento...

      O momento da confiança é aquele “em que as forças de heterogeneização

      estão por cima, o que engendra um novo tipo de relação feito de ‘respeito,

      admiração e confiança’...” Esse “outro tipo de relação’’ é, na verdade,

      “um outro modo de subjetivação, um outro mundo neste mundo. Amparar o

      outro na queda: não para evitar que caia nem para que finja que a queda

      não existe ou tente anestesiar seus efeitos, mas sim para que possa se

      entregar ao caos e dele extrair uma nova existência. Amparar o outro na

      queda é confiar nessa potência, é desejar que ela se manifeste. Essa

      confiança fortalece, no outro e em si mesmo, a coragem da entrega”

      (Rolnik, 1995).

      *

      E qual a relação de tudo isso com a emergência de uma outra concepção de

      público?

      Já falei da contribuição de determinadas técnicas de conversa de que

      podemos lançar mão no trabalho em saúde para a construção de uma

      democracia viva em ato, entendendo esta, junto com Maturana, como “um

      produto de nosso emocionar, uma maneira de viver de acordo com o desejo de

      uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo.” Uma produção

      afetiva, portanto.

      Ora, como também já disse, seja na dimensão conversacional, seja na

      dimensão de sua produção afetiva, o trabalho dos profissionais de saúde se

      articula às rede de trabalho em saúde, representando algumas de suas

      interfaces mais privilegiadas. Apostamos, portanto, em seu elevado

      potencial de condicionar a dinâmica global das redes sociais.

      Incitando a imaginação a voar e, quem sabe, a pousar sobre outras

      possibilidades de se pensar o público (e levando, conseqüentemente, a um

      outro “estilo político”!), mais uma vez recorro à radicalidade do

      pensamento político espinosano, que reside em sua fundação ontológica

      (ontologia que viemos explorando e que identifica o Ser e sua potência,

      com essa só se efetivando através dos afetos, que confirmam sua

      existência). Para Espinosa, o problema fundamental do Ser é como ser

      livre, como efetuar sua potência nas melhores condições. “E o Estado,

      sobretudo o Estado civil, isto é, a sociedade inteira é pensada assim: o

      conjunto das condições sob as quais o homem pode efetuar sua potência da

      melhor maneira. Portanto, não é de forma alguma uma relação de obediência

      [como no pensamento político hobbesiano]. A obediência virá como algo mais

      e deverá ser justificada pelo fato de que ela se inscreve num sistema em

      que a sociedade só pode significar uma coisa, a saber: o melhor meio para

      o homem efetuar sua potência” (Deleuze, 1978/1981).

                      E para uma outra concepção de público, um outro campo de

      problematização...

      Precisamos começar a verificar se nossas redes de trabalho afetivo têm

      efetivamente contribuído para que homens e mulheres efetuem suas

      potências, o que é o mesmo que contribuir para a potência dos coletivos de

      que fazem parte. Sim, porque o encontro do espaço de plena realização das

      potências individuais (a “zona de singularização”) passa pelo encontro do

      espaço de realização das potências “comunitárias” (a “zona de

      comunidade”)...

      Nossas redes, em seu trabalho afetivo, têm promovido esses encontros?

      Bibliografia

      

      Breilh J 2004. El abandono de equidad: domando la salud pública.

      International Conference: Rethinking “the Public” in Public Health:

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