As redes de trabalho afetivo e a contribuição da saúde para a emergência
de uma outra concepção de público
Ricardo Rodrigues Teixeira
Epidemia de desigualdade: proliferação de todas as formas de
desqualificação, desvinculação, eliminação, de produção de indivíduos
“desnecessários”. Epidemia de violência: “pandemia de medo” (Breilh,
2004). Vivemos em coletivos amedrontados, nos quais os laços sociais se
desfazem: paradoxais coletivos sem laços sociais, nos quais o coletivo
propriamente dito foi “seqüestrado” (Nunes, 2004). Epidemia de estados
depressivos (Lakoff, 2004): experimentamos, enfim, todas as formas de
diminuição da potência dos indivíduos e dos coletivos, que não são meros
efeitos colaterais das políticas neoliberais, mas uma de suas obras
principais, pois é preciso enfraquecer os indivíduos e os coletivos para
melhor dominá-los, para mais facilmente submetê-los à força do imperium.
É contra este cenário que nossas principais questões se colocam: como se
poderia alcançar algum sentido de público, onde o coletivo foi
“seqüestrado”? O que poderia significar nesse contexto de “impotência”
política, o desafio de construção de uma democracia participativa e
protagônica? O resgate da capacidade de iniciativa política dos grupos
sociais não teria se tornado a tarefa política prioritária nas sociedades
assoladas pelo cataclismo neoliberal? E esse resgate não passaria pela
restauração de “laços sociais” enfraquecidos?
Se estas são as questões mais gerais, elas ainda se especificam num plano
que pode ser dito micropolítico. Entendemos que os projetos políticos só
ganham plenamente sentido quando se atualizam neste plano, que é o plano
em que se realizam as formas de vida concreta das pessoas, aquele em que
se forjam suas expectativas e seus valores, os quais, em última instância,
conformam suas escolhas e adesões voluntárias a projetos políticos.
É este o campo problemático das argumentações que se seguem. Elas examinam
as conseqüências micropolíticas de determinadas práticas de saúde,
considerando a possibilidade de operarem como autênticas “técnicas de
reconstituição do laço social”.
*
É comum se partir das limitações dos equipamentos de saúde em
fazer frente à amplitude dos determinantes da saúde, para justificar a
necessidade de uma ação intersetorial. Aqui, o caráter intersetorial do
trabalho em saúde é dado primeiro e o que interessa é discutir qual a
contribuição efetiva dos equipamentos de saúde para essa tarefa amplamente
coletiva que é produzir saúde.
Assim, quando falo em trabalho em saúde, não estou me referindo apenas ao
trabalho dos profissionais de saúde, mas a todo um esforço coletivo,
envolvendo a participação de múltiplos agentes sociais que, direta ou
indiretamente, contribuem para a melhoria das condições de vida e saúde de
indivíduos e populações. E é nesse sentido ampliado que estou pensando,
quando falo em redes de trabalho em saúde.
Mesmo que meus estudos estejam focados no trabalho dos profissionais de
saúde e, mais especificamente, naquele que se dá na rede de serviços de
saúde, ele não deverá ser pensado apenas como tendo lugar numa matriz de
interações profissionais, mas enquanto um elemento integrado a estas redes
mais amplas de trabalho social. Nesses estudos, venho buscando uma
releitura teórica da rede de serviços de saúde – fundamentalmente, uma
releitura segundo categorias comunicacionais – que tem a vantagem de se
mostrar igualmente útil para a consideração das redes de trabalho em saúde
em sua acepção ampliada.
Nessas formulações teóricas, venho procurando uma aproximação mais fina e
menos abstrata da “materialidade” constitutiva da rede de serviços saúde
(Teixeira, 2001), o que me conduziu, num primeiro momento, ao
reconhecimento da natureza eminentemente conversacional do trabalho em
saúde e a uma primeira tentativa de sistematização das técnicas de
conversa que efetiva ou potencialmente dão forma a este trabalho
(Teixeira, 2003). Dessa perspectiva, as redes de trabalho em saúde passam
a ser concebidas como grandes redes de conversações.
*
Proponho uma dada técnica de conversa, convencido de que se trata de uma
resposta adequada aos problemas, hoje intensamente discutidos no Brasil,
do acolhimento e do vínculo nos serviços de saúde. Afastando-se das
soluções mais freqüentes que tendem a tratar o acolhimento como uma
atividade (de recepção nos serviços) desempenhada por um profissional
particular num espaço específico, o acolhimento é aqui proposto como um
acolhimento dialogado, isto é, como uma técnica de conversa passível de
ser operada por qualquer profissional, em qualquer momento de atendimento,
isto é, em qualquer dos encontros, que são, enfim, os “nós” da imensa rede
tecnoassistencial da saúde. E o que caracterizaria essa técnica de
conversa? O acolhimento-diálogo, no sentido mais amplo possível,
corresponde àquele componente das conversas que se dão nos serviços em que
identificamos, elaboramos e negociamos as necessidades que podem vir a ser
satisfeitas.
Em outro texto (Teixeira, 2003), discuti o papel crucial que este
componente da conversa desempenha na dinâmica global da rede, o modo como
“conecta” seus diversos pontos. Privilegiarei aqui, não o que o
acolhimento faz para o funcionamento da rede, mas como faz: o modo como
esta técnica de conversa define a dimensão pragmática do encontro, os
domínios de ação (emoções, afetos) e de significação (linguagem,
conhecimento) e as utilizações possíveis do próprio encontro.
Como já foi dito, trata-se de um acolhimento dialogado e esse diálogo se
orienta, fundamentalmente, pela busca de um maior conhecimento das
necessidades de que o usuário se faz portador e dos modos de
satisfazê-las. Portanto, será preciso primeiramente explicitar qual o tipo
de relação se deve aqui estabelecer com a questão das necessidades. E esta
corresponde, de fato, a uma das mais finas “operações de passagem”
propostas por este dispositivo de conversa, consistindo na pressuposição
geral, que deveria pautar todas as conversas e práticas de conhecimento
que se dão no serviço, de que nossas necessidades não nos são sempre
imediatamente transparentes e nem jamais estão definitivamente definidas,
mas são e desde sempre têm sido objeto de um debate interminável, de uma
experimentação continuada, em que o que se discute e refaz sem cessar é a
nossa própria humanidade.
Pode-se dizer, de forma bem sucinta, que o acolhimento dialogado seria uma
técnica de conversa de apoio ao processo de conhecimento das necessidades,
fundada em certas disposições ético-cognitivas:
· o reconhecimento do outro como um legítimo outro;
· o reconhecimento de cada um como insuficiente;
· o reconhecimento de que o sentido de uma situação é fabricado pelo
conjunto dos saberes presentes.
Ou ainda: todo mundo sabe alguma coisa, ninguém sabe tudo e a arte da
conversa não é homogeneizar os sentidos fazendo desaparecer as
divergências, mas fazer emergir o sentido no ponto de convergência das
diversidades.
Penso que de um ponto de vista micropolítico, tal arte ou técnica de
conversa é uma contribuição genuína para o problema contemporâneo da
democracia, concebendo-a nas relações cotidianas, como a possibilidade do
exercício de uma democracia viva em ato. Idéia de democracia que foi
concebida e tão bem expressa por Humberto Maturana, para quem: “a
democracia é uma obra de arte, um sistema de convivência artificial gerado
conscientemente, que só pode existir através das ações propositivas que
lhe dão origem como uma co-inspiração em uma comunidade humana. (...). A
democracia não é um produto da razão humana, a democracia é uma obra de
arte, é um produto de nosso emocionar, uma maneira de viver de acordo com
o desejo de uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo.”
(Maturana y Verden-Zöller, 1997).
O que pretendo destacar de todas essas observações é como o acolhimento
dialogado, enquanto uma técnica de conversa, parece se caracterizar
primordialmente por um conjunto de disposições ético-cognitivas, pela
aceitação de um conjunto de pressupostos e predisposições no diálogo com o
outro, o que define, a rigor, seus domínios de ação e de significação.
Correspondem, efetivamente, a determinados “estados do corpo”, àquilo que
Maturana chamaria de seus “emocionares”, ou seja, a determinadas emoções e
afetos. Trata-se, enfim, de um dos modos pelos quais se pode evidenciar a
incidência eminentemente afetiva do trabalho em saúde e o quanto essa sua
produção “intangível” está fortemente condicionada por suas técnicas de
conversa. As redes de trabalho em saúde – essas extensíssimas redes de
conversações – passam, assim, a ser pensadas como redes de trabalho
afetivo, no sentido de que o essencial nelas é, de fato, a criação e a
manipulação dos afetos.
E o que são redes de trabalho afetivo? São redes de produção de afetos, o
que, como procurarei demonstrar, é a própria produção de redes sociais, de
comunidades, de formas de vida (biopoder), de produção de subjetividades
(individuais e coletivas) e de sociabilidade (Hardt, 1998). Redes de
produção de redes.
*
Microfísica do vínculo: uma leitura espinosana
Na contramão dos analistas estruturais de redes, recorrerei ao exame de
uma relação diádica, isolada do conjunto da rede de relações. Estes
estudiosos de redes ponderam que não poderemos compreender a formação de
coalizões sociais a partir dos estudos de díadas, mas, antes, são as
formas de reciprocidade diádica que precisam ser compreendidas no contexto
das estruturas formadas por suas conexões (Wellman & Berkowitz, 1988).
Contudo, não estou privilegiando, neste momento, a dinâmica global das
redes, mas alguns eventos mais localizados que permitam uma melhor
compreensão da natureza íntima do vínculo, elemento sem o qual as próprias
redes não existiriam. Trata-se de um primeiro ensaio de microfísica do
vínculo, examinando sua substância eminentemente afetiva, o que implica
que consideremos o que se passa com os corpos e, mais exatamente, o que se
passa no encontro entre, no mínimo, dois corpos.
Também utilizarei um outro recurso expressivo para a brevidade da
exposição: uma metáfora. A situação de encontro entre dois corpos que irei
analisar deve ser a mais prosaica, universalmente experimentada e
reconhecida por todos nós: a “paquera” (o flerte - flirt). Para não perder
a pompa acadêmica, eu denominarei minhas análises de “teorema da paquera”.
Num primeiro instante, fulminante, temos o chamado “amor à primeira
vista”. Os corpos experimentam, neste caso, um estado de paixão “passiva”
(logo ficará mais claro o que isso quer dizer) e estamos sob o domínio da
imagem do outro, da impressão que ele nos causa, das afecções que ele
imprime em nosso corpo. No caso, uma boa, uma ótima impressão.
Experimentamos, em termos espinosanos, um afeto aumentativo, um sentimento
de aumento de nossas potências ou, dito de outra forma, um aumento de
nosso desejo, de nosso apetite, que se nutre da convicção de que aquele
outro corpo nos convém. Mas até aí, também em termos espinosanos, estamos
no reino do “conhecimento vago”. É claro que os espíritos mais
“apaixonados” sempre dirão estarem seguros de terem encontrado seu par
perfeito, seu amor eterno, mas sabemos que tais verdades só se confirmarão
a posteriori...
Do mesmo modo que Espinosa chama esse “conhecimento vago” (ou imaginativo)
de conhecimento de primeiro gênero, podemos chamar as relações sustentadas
por tais vínculos de uma relação de primeiro gênero.
(Se quisermos estabelecer um paralelo rápido com o que se passa num
encontro usuário-profissional de saúde, por exemplo, talvez essa primeira
impressão – quando positiva – corresponda à chamada relação de “empatia”,
que tantos autores consideram essencial para a adequada realização do
trabalho em saúde. Esse primeiro impacto afetivo, a meu ver, é muito mais
complexo, ou seja: a gama de afetos mobilizados num primeiro encontro e
que podem levar à formação de vínculo me parece muito mais ampla e
diversificada, tanto quanto são amplos e diversificados os fatores que
podem condicionar esse encontro. No entanto, para não perdermos o fio da
metáfora, podemos considerar este rápido paralelo como provisoriamente
válido).
Continuando nossa novela amorosa, é possível que, com alguma sorte, aquele
encontro que despertou paixões intensamente positivas (ainda que
“passivas”) se prolongue. Podemos, por exemplo, marcar um novo encontro,
combinar uma saída, quem sabe um jantar a dois, de preferência uma
oportunidade qualquer para conversar. Sem querer homogeneizar toda uma
diversidade de estilos possíveis de paquera, creio não incorrer em graves
reducionismos ao fazer algumas generalizações sobre o conteúdo mais
habitual destas primeiras conversas. Os enamorados tendem, em seus
primeiros encontros, a explorar o que têm em comum ou o que irei chamar de
“zona de comunidade”:
- Você gosta de comida japonesa? Puxa, eu também adoro!
- Não me diga que você gosta dos filmes do Hal Hartley? Incrível! Eu nunca
conheci alguém que também gostasse... Só falta você dizer que também gosta
de Tarkovski... Não acredito!
- Você também não suporta televisão? Nossa, a gente tem tudo a ver...
Se alguém duvida desta fórmula da paquera, basta imaginar os efeitos de
uma situação exatamente inversa, em que não descobríssemos qualquer “zona
de comunidade” com aquele que, à primeira vista, despertou nosso
interesse. Sairíamos do encontro provavelmente bastante frustrados ou, no
mínimo, com uma enorme incerteza a respeito do futuro daquela relação.
Paixões violentas não se extinguem diante desta decepção, mas já começam a
prometer turbulências.
Na nossa novela, entretanto, a paixão que se acendeu ao primeiro olhar só
continuou a crescer mais e mais, na medida em que descobrimos a amplidão
de nossa “zona de comunidade”, na medida em que descobrimos que aquele
corpo realmente nos convém. Experimentamos esta nova paixão como um
aumento ainda maior de nossa alegria, um aumento de nossa potência, de
nosso desejo e apetite de vida. Mas, sobretudo, ela vai deixando de ser
uma paixão “passiva” e progressivamente vai se tornando uma paixão
“ativa”, isto é, descobrimos, pelo conhecimento recíproco, que estamos
realmente diante da possibilidade de entrarmos, conjuntamente, na posse
dessa potência de vida e experimentarmos afetos de alegria consistente.
Saímos deste encontro rindo à toa. Com esse riso gratuito, essa espécie de
excesso ontológico que é o riso dos enamorados...
Segundo Espinosa, já adentramos o reino do “conhecimento adequado” ou do
conhecimento de segundo gênero, que é o conhecimento das “noções comuns”,
o conhecimento daquilo que nos outros corpos nos convém. Esse
conhecimento, quando é buscado conjunta e reciprocamente numa relação,
abre a possibilidade de uma relação de segundo gênero.
(Também poderíamos ensaiar mais alguns paralelos parciais com o que se
passa no encontro usuário-profissional de saúde, quando ele atinge este
segundo patamar, quando ele vai além de uma mera relação de empatia. Aqui
também será preciso considerar algumas características da conversa.
Levando-se em conta a assimetria constitutiva deste encontro, em que uma
das partes está em busca de uma satisfação de necessidades, enquanto a
outra é presumida deter os meios de satisfazê-la, podemos supor que o
estabelecimento de uma “zona de comunidade” se dará em torno deste
reconhecimento recíproco: o que um precisa e o que o outro tem a oferecer.
De novo, trata-se de uma primeira aproximação bastante simplista do que
pode se passar nesta conversa. Há, de fato, muitas outras possibilidades
de se alcançar “noções comuns” nesta relação. Basta considerar, por
exemplo, que a conversa, neste encontro, não é apenas veículo para se
chegar a um conjunto de acordos ou consensos, mas tem um fim em si mesma,
na medida em que se trata de uma “obra conjunta” que vai construindo o
sentido daquele encontro, na medida em que se trata do primeiro produto
material partilhado daquela relação. Em qualquer caso, entretanto,
reconhece-se o sucesso do encontro em seus resultados afetivos, sempre que
os corpos em presença experimentarem afetos aumentativos de alegria e
potência).
Neste ponto, creio que poderíamos qualificar melhor a natureza destes
afetos aumentativos de potência experimentados por pelo menos dois corpos
quando descobrem que mutuamente se convêm. A meu ver, são estes,
justamente, os afetos que dão consistência ao vínculo. São eles que
constituem esta espécie de “energia antropológica” dos laços sociais.
Entendo que estes são os chamados afetos de confiança: são eles que dão
substrato ao que chamamos de uma relação de confiança.
Ora, sabemos que no trabalho em saúde, não se pode sequer falar numa
relação verdadeiramente terapêutica sem que haja uma relação de confiança.
Mas tampouco as relações amorosas ou sociais que possam ser ditas
“saudáveis” prescindem de relações de confiança. E dizer isso não é pouco
numa época em que quase tudo se volta para maximizar as relações de
desconfiança. Não seria difícil descrever os elementos de uma autêntica
cultura da desconfiança:
- a biomedicina, montada no saber epidemiológico sobre o risco, não cessa
de nos indicar onde moram os perigos, de nos fazer desconfiar de quase
tudo que nos cerca, de quase tudo que fazemos, comemos ou bebemos. O
discurso sobre o risco é, antes de tudo, um discurso geral sobre os corpos
que não nos convêm (e apenas indiretamente, por contragolpe, um discurso
sobre os corpos que podem eventualmente nos convir) e, portanto, um
discurso que comunica tristeza, promovendo afetos de diminuição da
potência, tanto mais totalitário quanto nos damos conta de que várias
destas condições de risco dizem respeito a aspectos de nossa vida
“normal”.
- os tiranos de todo tipo, onipresentes no passado tanto quanto em nossa
história presente, também têm seu próprio discurso, sempre atualizado, do
terror e do medo, inoculando em nossas almas e fazendo circular por toda
parte a desconfiança em relação ao outro, especialmente, em relação ao
estranho, seja o não homogeneizado pelos mecanismos de captura e produção
de subjetividade serializada, seja simplesmente o estrangeiro. Ora,
Espinosa já pintara um retrato deste tirano, mostrando que se trata de
alguém que tem, acima de tudo, necessidade de nossa tristeza, “porque não
há terror que não tenha uma espécie de tristeza coletiva como base”
(Deleuze, 1978/1981).
- os economistas disputam com os médicos (e ambos com os antigos
sacerdotes) o lugar de dominância no discurso sobre o risco. Só que, nesse
caso, não emitem juízo sobre os riscos para a saúde dos indivíduos em
geral, mas para a saúde financeira dos especuladores e vendedores de
crédito do planeta. Falam em “risco-país” e alguns “especialistas”
(credenciados pelas próprias instituições financeiras) publicam
periodicamente índices que podem ser bem definidos como “índices de
desconfiança”: medem o grau de desconfiança que se deve ter em relação a
certos mercados-países.
- por fim, não podemos esquecer da mídia, irradiando todos estes discursos
sobre a desconfiança no mais alto volume, deixando-nos surdos e incapazes
de perceber os canais de circulação de solidariedade, de confiança (no
outro e na vida) e de alegria consistente.
Nesse sentido, conquistar a confiança, por si só, já é um logro. É não
apenas a experiência de uma grande alegria, mas uma potência capaz de
sustentar as dificuldades maiores de uma relação. Sim, porque há outras
conquistas, maiores, a se realizar numa relação...
A “zona de comunidade”, isto é, a descoberta daquilo que nos outros corpos
convém ao nosso, é apenas o primeiro patamar de uma relação consistente.
Naturalmente, por mais raro que tenha se tornado, este ainda é o patamar
mais fácil de alcançarmos e aquele que, talvez, nos dará a força
necessária para conhecer o que é mais difícil: aquilo que nos outros é
diferente e corresponde a sua “zona de singularidade”. Porque é preciso
uma potência ainda maior para se conhecer, nos outros corpos, aquilo que
não nos convém.
Esse é, para Espinosa, o conhecimento de terceiro gênero ou conhecimento
das “essências singulares”. Relação de terceiro gênero.
Voltando a nossa metáfora amorosa – já abandonando a fase da paquera e
partindo para a possibilidade de uma relação duradoura -, sabemos o quanto
essas paixões iniciais, mesmo que medianamente “ativas”, isto é, mesmo que
já fundadas no (re)conhecimento de uma “zona de comunidade”, por mais
ampla que seja, por mais fortes que sejam os afetos de confiança que daí
decorrem, não são sempre suficientes para garantir que nós saberemos lidar
com as diferenças, com o que no outro eventualmente não nos convém. Por
isso, não raramente, quando decidimos encarar a possibilidade de fazer
esta relação perdurar, fazemos um “contrato”. E sabemos que os contratos
começam onde a confiança termina... Os contratos podem ser vistos como
próteses sociais de uma confiança perdida ou que jamais existiu. Ora, isso
não quer dizer que quando vamos a um cartório para firmar um casamento não
haja mais confiança recíproca. Pelo contrário, isso geralmente acontece
quando a confiança está no auge! Mas não creio que seja exagerado dizer
que, na prática, só é preciso firmar este contrato porque queremos
garantir que certos compromissos serão mantidos e não temos certeza que
seremos capazes, até o fim, de aceitar um ao outro, em todas as suas
diferenças (que certamente acabarão por se revelar, mais cedo ou mais
tarde).
A partir deste ponto, em que eventualmente recorremos a um “contrato”,
percebemos, de qualquer modo, que a confiança não é mais suficiente para
sustentar as novas aventuras da relação. Sem ela, não teríamos chegado até
aqui e ela é a própria potência, a própria força ou o trampolim que nos
impulsionará mais adiante. E o que temos adiante? Não mais o que no outro
se assemelha a nós. Não mais o que é facilmente reconhecível. Não mais o
que no outro é, de certa forma, nossa própria imagem espelhada. Mas o que
no outro é irredutível. Sua diferença absoluta. Sua singularidade radical.
E é aí que começa o verdadeiro desafio da alteridade. Só aí somos
verdadeiramente desafiados a aceitar o outro como um legítimo outro.
Nessas novas zonas, passamos a experimentar novas intensidades, às quais
fomos conduzidos pelos afetos de confiança, mas que já correspondem a
novos afetos aumentativos que anunciam, por sua vez, outros modos de
existência, em que nos tornamos a causa última de nossas paixões, em que
entramos plenamente na posse de nossa potência. Para Espinosa, a
liberdade.
E o que é esse afeto, essa paixão que nos predispõe a aceitar o outro como
um legítimo outro, senão o já mencionado acolhimento?
De novo, pensemos na relação usuário-profissional e em sua assimetria
constitutiva, já que uma parte busca ajuda e a outra parte oferece
apoio... Ora, “o apoio na queda não se faz por um ‘ter pena de’, mas por
um ‘sofrer com’...” E eis outro modo de se fazer “zona de comunidade”:
com-paixão. “Um ‘sofrer com’ feito ao mesmo tempo de indiferença e de
cumplicidade: indiferença em relação a tudo o que cheira a vontade de
homogeneização (por exemplo, viver a queda como vítima), mas cumplicidade
também com todo e qualquer movimento de entrega e de diferenciação”
(Rolnik, 1995).
Quando um campo de confiança se constituiu entre os sujeitos, já podemos
nos mostrar para o outro com todos os traços de singularização que marcam
nosso corpo e nossa alma, sem medo de sermos rotulados como loucos, fracos
ou perdedores. Nota-se que há um deslizamento sutil do afeto de confiança
para o afeto de acolhimento...
O momento da confiança é aquele “em que as forças de heterogeneização
estão por cima, o que engendra um novo tipo de relação feito de ‘respeito,
admiração e confiança’...” Esse “outro tipo de relação’’ é, na verdade,
“um outro modo de subjetivação, um outro mundo neste mundo. Amparar o
outro na queda: não para evitar que caia nem para que finja que a queda
não existe ou tente anestesiar seus efeitos, mas sim para que possa se
entregar ao caos e dele extrair uma nova existência. Amparar o outro na
queda é confiar nessa potência, é desejar que ela se manifeste. Essa
confiança fortalece, no outro e em si mesmo, a coragem da entrega”
(Rolnik, 1995).
*
E qual a relação de tudo isso com a emergência de uma outra concepção de
público?
Já falei da contribuição de determinadas técnicas de conversa de que
podemos lançar mão no trabalho em saúde para a construção de uma
democracia viva em ato, entendendo esta, junto com Maturana, como “um
produto de nosso emocionar, uma maneira de viver de acordo com o desejo de
uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo.” Uma produção
afetiva, portanto.
Ora, como também já disse, seja na dimensão conversacional, seja na
dimensão de sua produção afetiva, o trabalho dos profissionais de saúde se
articula às rede de trabalho em saúde, representando algumas de suas
interfaces mais privilegiadas. Apostamos, portanto, em seu elevado
potencial de condicionar a dinâmica global das redes sociais.
Incitando a imaginação a voar e, quem sabe, a pousar sobre outras
possibilidades de se pensar o público (e levando, conseqüentemente, a um
outro “estilo político”!), mais uma vez recorro à radicalidade do
pensamento político espinosano, que reside em sua fundação ontológica
(ontologia que viemos explorando e que identifica o Ser e sua potência,
com essa só se efetivando através dos afetos, que confirmam sua
existência). Para Espinosa, o problema fundamental do Ser é como ser
livre, como efetuar sua potência nas melhores condições. “E o Estado,
sobretudo o Estado civil, isto é, a sociedade inteira é pensada assim: o
conjunto das condições sob as quais o homem pode efetuar sua potência da
melhor maneira. Portanto, não é de forma alguma uma relação de obediência
[como no pensamento político hobbesiano]. A obediência virá como algo mais
e deverá ser justificada pelo fato de que ela se inscreve num sistema em
que a sociedade só pode significar uma coisa, a saber: o melhor meio para
o homem efetuar sua potência” (Deleuze, 1978/1981).
E para uma outra concepção de público, um outro campo de
problematização...
Precisamos começar a verificar se nossas redes de trabalho afetivo têm
efetivamente contribuído para que homens e mulheres efetuem suas
potências, o que é o mesmo que contribuir para a potência dos coletivos de
que fazem parte. Sim, porque o encontro do espaço de plena realização das
potências individuais (a “zona de singularização”) passa pelo encontro do
espaço de realização das potências “comunitárias” (a “zona de
comunidade”)...
Nossas redes, em seu trabalho afetivo, têm promovido esses encontros?
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