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Caso Gaspar

Page history last edited by Roberta Oliveira 16 years, 8 months ago

Caso Gaspar

 

relato clínico escrito

pelo psicanalista David Calderoni

 

 

Antecedentes

 

Preocupada com o fato de que seu filho de seis anos tinha dificuldades para dormir, estava fascinado por carros e era muito irrequieto, Dona Carolina encaminhou Gaspar para o dignóstico de uma psiquiatra, a qual, após nove sessões de observação, concluiu que o menino apresentaria Síndrome de Asperger. Segundo Dona Carolina, a psiquiatra teria explicado tratar-se de um tipo de autismo em que a interação afetiva se encontraria prejudicada, enquanto a cognição e a linguagem se encontrariam preservadas.

Angustiada pelo diagnóstico, Dona Carolina me procurou, contou essa história e concordou com a minha proposta de que trouxesse a criança.

 

Primeiro contato com Gaspar [passagem]

 

Sessão seguinte, na presença da mãe, perguntei a Gaspar sobre a escola, o que tinha feito no dia anterior e algumas outras generalidades de que não lembro, ao que a criança balbuciou coisas que não entendi, mantendo-se colado na poltrona de modo aparentemente apavorado.

Perguntei então se estava gostoso o sanduíche de marmelada que teria comido no recreio.

  Mas era de queijo..., respondeu.

[David] – Mas aposto que o lanche do seu melhor amigo era de marmelada.

[Gaspar] –  Quem? o Danilo?

[D] –  É.

[G] –  Ele comeu pastel...

[D] – Ah... Você sabe jogar o jogo da velha?

[G] –  Sei...

[D] – Eu também sei, só que eu ganho todas as vezes – declarei, num tom triunfal.

[G] –  Duvido! – Gaspar levantou-se, enquanto eu pegava uma prancheta e armava o jogo com a caneta, passando-a a ele que, já próximo, desenhou um círculo na casa central, ao qual respondi com um xis – e o jogo teve início.

No quarto lance, assumi o círculo dele, completei uma fileira e bradei que tinha ganhado.

[G] – “Trapácia”! Isso é “trapácia”!

Gaspar então se aproximou ainda mais e, com o dedo em riste, me advertiu:

[G] – “Isso é muito muito feio...! Olha, se você fizer “trapácia” de novo, a gente volta pras questões!!

 

Desenvolvimentos

 

- no encontro posterior, sem a presença de Gaspar, ocorreu o seguinte diálogo:

[David] – Achei seu filho bastante afetivo...

[Carolina] – É, eu disse para a psiquiatra que com essa parte eu não concordava... Mas, e o fato de que ele só fala de carros...?

[D]   Não sei, mas talvez o movimento seja importante para ele...

[C] – Hmmm... de fato, primeiro ele teve a fase dos aviões; depois, dos navios...; e, depois, dos trens... Interessante: você está falando do sentido que esses meios de transporte teriam para ele...

[D]   Sim... mas por que a observação...?

[C] – É que a psiquiatra encarou como sinal de esteriotipia... Isso é diferente... porque não pensa pelo lado do sentido da coisa pro Gaspar, como você está fazendo...

[silêncio]

[C] – E o que a gente faz com a insônia e a agitação dele...?

[D]   A gente vai vendo... Quem sabe, à medida que ele puder falar, desenhar, modelar, conversar a partir dessas coisas que se movem, isso altere a insônia e a agitação...

[C] – E se não der certo...?

[D]   Não descarto uma avaliação neurológica, mas sempre levando em conta isso que você falou sobre o sentido da coisa pro Gaspar. Aliás, acho que ele deu uma dica sobre como viveu as nove sessões de observação psiquiátrica...

[C] – O que você quer dizer com isso?

[D]   Lembra quando ele me repreendeu por causa da trapácia? Ele me ameaçou de voltar pras questões, como se fosse um castigo. No início da conversa, quando ele ficou quase mudo, penso que Gaspar deu uma amostra do peso das sessões de observação. A minha hipótese é que o diagnóstico de autismo projetou em Gaspar a situação de isolamento afetivo do método da entrevista psiquiátrica.  [1]

 

 



[1] Esta hipótese tem em vista uma prática presente na psiquiatria, mas que nem a totaliza, nem a distingue de certos procedimentos também adotados na psicanálise e na psicologia clínica. Incluo-me nesse risco permanente, como apontarei.

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